21/03/07
a grande nação
no gotejar da cor, o virar da dor-que-não-para
no virar do dia, o virar da idade
no outro lado de esguia, o momento, o calor
no outro lado, uma borboleta, um sofrimento
(em dia-de-anos-de-uma-borboleta)
(em dias-de-ano-de-bater-doloroso)
11/03/07
o relógio-da-borracha-que-apaga
o tempo da borracha
foge saltita, ele foge, que apaga
dedo a dedo, não te mexas, ele foge não procures
não te cales, escolhe a parede, não escutes
espalma a mão, alinha a palma, que eu não
pinta, a cor de novo que o tempo não encontro,
pinta e esconde a parede que a borracha apaga,
que de novo, não encontra
mais uns minutos, e é um novo tempo,
que hoje desenhou.
é uma métrica fonética que desenha o que se ouve
é uma métrica que o desenho apaga o que nunca houve.
o poço seca, as moedas morrem, a gruta escurece
saltita, medo a medo, não te mexas, espera que a noite venha
a linha cose-te, a linha estanca-te, espera que a borracha chegue
num-caminhar-que-não-para-no-relógio-da-borracha
num-excerto-que-descansa-te-que-aninha-se-entrelinha-se
que se num excerto que ainda a linha encara
que se alinha a mão, que se espalma a linha
que apaga de novo,
que se mexe o ponterio, apaga que ele foge
hoje, hoje,
acorda...
(a partir de thom yorke)
03/03/07
rolam sonhos pelo chão
cada pedaço de perdão, ou não, ou então,
cada canto cada sombra, cada toque de abrigo,
o sonho antigo, guardado a dornado...
e cruzam-se vivem-se mesmo que fugidios,
vivem-se riem-se, juntos lado a lado,
digo eu...
fugidios palmilham cada sulco de chão,
esses sonhos...
e caem, caem mais,
pelos lados da cama,
pelos laços pelos fios do sono,
do sonho teu...
digo eu.
(a partir de sara costa)
01/03/07
will you be my man?
entre silêncios sussurrados
entre olhares respirados
entram em ti, objectos voadores
criadores, moldados,
entre linhas entre caladas
entre silêncios...
hail to the thief
uma luz, tenda cor
um abrigo cerco retiro
uma gota, gota a gota o quê
emparedado o ardor
esgaravatar continuamente mente
menos dor menos mente ente
menos luz, menos cor
mais calor mais temor
gota a gota alguma coisa
terra a terra, mas não eu
chuvisco granizo ao ladrão
alguma coisa mas não eu
mas não eu não eu o quê
(a partir de lucinda lourenço)
ofélia
ofélia repousa de chão
ou não, então,
de luz poeira,
de bate-chão, de bate-fogo
de bate-outro
de rodopiar tosco
cabelos livres, em tramas
à volta fosco,
em cor fogo,
que bebe o sumo
laranja, das chamas
(a partir de patrícia leitão)
ovnis de rua
antes que rumine, antes que se findem
objectos, antes que voem
antes que se identifiquem, que se findem
na rua, no olhar, no bocejo do segundo
em linhas, em ondas, caladas, que se findem.
(a partir de patricia leitão)
14/02/07
novelos
que estendem atravessadas que tropeçam atordoadas que ficam ali
que ficam ali.
há vezes que menos vezes nos apetece pegar, antes deixar
que acordem, que chorem tudo, que lhes peguemos, que chorem tudo
que a idade que as torna redonda, que as adorne de significado,
que as beije, a idade.
há vezes que às vezes as palavras nos enrolam
que nos estatelam que nos deixam que ficam ali,
que ficam ali.
há vezes que tantas vezes que não nos deixam que nos peguem, que nos cerquem
que acordemos, e choro tudo, que nos tomemos, e choro tudo,
aos encontrões, aos atropelos, aos novelos atropelos,
que me beije, a idade.
e traz água, portanto porquanto,
e tenho saudade no entanto,
que me beije, a palavra, que tropeço no novelo
destreinei-me, que fico aqui
que fico aqui.
(a partir de patrícia leitão)
03/02/07
sou ladrão
ladrão de medos, de cadeias,
liberto palavras, desfiadas
sou ladrão de palavras desfiadas